Um início de vida privado de direitos!
LEOVEGILDO DA CRUZ
O DIA começa cedo na baixa da cidade de Maputo. Antes da abertura das lojas e serviços públicos, os primeiros trabalhadores dirigem-se aos seus postos laborais.
O trânsito intensifica-se, os vendedores organizam as bancas e os edifícios que acolhem instituições do Estado, empresas e estabelecimentos comerciais voltam a receber milhares de pessoas. No meio deste movimento diário, há famílias que acordam no mesmo local, os moradores de rua.
Numa ronda por diferentes pontos da capital, o “Notícias” encontrou crianças a viver com os pais em passeios, edifícios abandonados e abrigos improvisados. Na Rua Timor-Leste, junto à Fortaleza de Maputo, pedaços de papelão, lonas, cobertores e alguns utensílios domésticos revelam a presença de famílias que transformaram o passeio em residência.
Na Rua do Bagamoyo, edifícios abandonados servem de abrigo para homens, mulheres e crianças. É neste ambiente que alguns menores nascem, passam os primeiros meses de vida e atravessam a infância. Ao amanhecer, as mães saem para mais um dia de mendicidade com os filhos ao colo. À medida que crescem, muitas crianças acompanham os adultos e aprendem actividades que ajudam no sustento do agregado familiar.
Grande parte destas famílias chegou à capital do país proveniente de outras províncias, na expectativa de encontrar emprego e melhores condições de vida. Outras romperam os laços familiares devido ao consumo de álcool e substâncias psicoactivas. Sem habitação nem rendimento regular, passaram a viver na rua, onde constituíram família e tiveram filhos.
O sustento depende da mendicidade, polimento de viaturas, recolha de materiais recicláveis, prostituição e trabalhos ocasionais.
As refeições variam conforme o dinheiro recebido ou alimentos encontrados nos contentores de lixo. Enquanto muitas crianças crescem com acesso à saúde, educação e protecção social, estas iniciam a vida em espaços públicos, sem acesso regular ao registo civil, assistência sanitária e alimentação adequada, tendo a rua como o primeiro espaço de aprendizagem e sobrevivência.
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