A voz da periferia na ONU: entre poder, capital global e o conteúdo local moçambicano

Raimundo Mapanzene

A TRIBUNA das Nações Unidas sempre foi o palco por excelência onde a periferia do mundo fala de igual para igual com o centro do poder global.

Em Setembro de 2026, ao discursar na 81.ª Sessão da Assembleia Geral da ONU, o Presidente Daniel Chapo levou a voz de Moçambique a Nova Iorque e ensaiou uma postura firmemente contra-hegemónica frente à arquitectura financeira e política internacional.

Ao cruzar a necessidade de captação de capital com a soberania sobre as matérias-primas e a obrigatoriedade de políticas de conteúdo local, o discurso moçambicano desafiou abertamente a lógica do capitalismo global subordinante, que insiste em manter o Sul Global confinado à periferia económica.

O diagnóstico de Chapo sobre o estado do mundo toca na ferida da anomia institucional. Quando o líder moçambicano afirma que os pilares da ONU enfrentam uma pressão sem precedentes, ele constata a falência de uma ordem social global que já não consegue arbitrar conflitos nem garantir a coesão.

A exigência categórica de dois assentos permanentes para África no Conselho de Segurança nunca foi um capricho diplomático, mas uma denúncia explícita de uma estrutura caduca e colonial que perpetua a exclusão política de mais de bilião e meio de pessoas das tomadas de decisão que moldam o planeta.

Contudo, é no campo da economia política que o discurso ganha contornos de uma verdadeira Teoria da Dependência aplicada ao século XXI. Ao evocar a questão  clássica da “África rica que retém pouco valor”, Chapo atacou directamente a Divisão Internacional do Trabalho. É que  Moçambique conhece na pele as consequências de ser um isolamento extractivista: exporta-se o gás, o carvão e os minérios em bruto, importam-se os bens manufaturados a preço de ouro, e o valor acrescentado evapora-se para as capitais do Norte Global ou para os mercados emergentes da Ásia.

O apelo à industrialização local e regional é, por isso, um grito de libertação económica.

Esta retenção de valor, todavia, esbarra historicamente na fragilidade mecânica do conteúdo local, um quisto que a análise sociológica e económica não pode ignorar. Sem uma legislação robusta, vinculativa e punitiva, a entrada de grandes volumes de capital estrangeiro traduz-se na criação de megaprojetos isolados do tecido empresarial doméstico.

Sabe-se que as multinacionais tendem a subcontratar os seus fornecedores tradicionais estrangeiros em detrimento das pequenas e médias empresas moçambicanas, que se vêem marginalizadas por falta de certificação, de linhas de crédito competitivas ou de transferência tecnológica efectiva.

Sem a obrigatoriedade legal de integração do empresariado nacional e de capacitação de quadros locais em posições estratégicas de decisão, o “conteúdo local” permanece uma abordagem retórica, perpetuando o país como mero espectador passivo da riqueza que brota do seu próprio solo e aprofundando o fosso das desigualdades socioeconómicas.

Estratégias híbridas e diplomacia de equilíbrio

O grande mérito da actual política externa moçambicana reside no seu hibridismo estratégico. Daniel Chapo rejeita o isolamento ou a ruptura radical. O país move-se com uma destreza assinalável entre o Ocidente tradicional e o Sul Global.

Em Nova Iorque, o Presidente, criticando a assimetria do sistema financeiro, senta-se com a directora-geral do Fundo Monetário Internacional e pisca o olho aos investidores no Forbes África Day. Em Maputo, o Governo, mantendo contratos multimilionários com petrolíferas europeias e americanas, estuda com seriedade a sua aproximação ao banco dos BRICS para financiar infra-estruturas sem amarras ideológicas.

Esta diplomacia do equilíbrio (onde as forças de defesa do Ruanda e os instrutores da União Europeia coabitam no combate ao terrorismo em Cabo Delgado) mostra que Moçambique aprendeu a jogar o jogo global.

A lição que fica de Setembro de 2026 é clara: o cosmopolitismo já não é um privilégio das potências hegemónicas.

Moçambique provou que é possível abraçar o multilateralismo sem abdicar da soberania, e que a verdadeira independência económica não se faz com isolamento, mas sim renegociando, de cabeça erguida, os termos da nossa integração no mundo.

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