ESSENCIALMENTE HUMANOS: Incêndio na Oncologia e a solidariedade humana
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Margarida Ruco Machava
O INCÊNDIO que na manhã de domingo, 1 de Novembro, atingiu o Serviço de Oncologia do Hospital Central de Maputo deixou imagens preocupantes. Parte de uma unidade dedicada ao tratamento de doentes com cancro foi destruída, despertando consternação e inquietação em muitas famílias.
Mas, no meio desta ocorrência, houve também uma demonstração daquilo que somos capazes de fazer quando a protecção da vida se torna uma preocupação colectiva. Os 22 pacientes internados foram retirados em segurança, graças à intervenção dos profissionais envolvidos na resposta à emergência.
Este acontecimento convida-nos a reflectir sobre uma verdade que, por vezes, esquecemos: a solidariedade não é apenas um sentimento, é uma forma de agir em defesa da vida e da dignidade humana.
Quem enfrenta uma doença, como o cancro, necessita de cuidados médicos, mas também de segurança, acolhimento e confiança de que não ficará sozinho nos momentos de maior vulnerabilidade. Uma unidade de oncologia representa, por isso, muito mais do que paredes e equipamentos: representa esperança para os pacientes, tranquilidade para as famílias e dedicação de profissionais que diariamente cuidam de outras vidas.
E é aqui onde encontramos uma dimensão essencial dos Direitos Humanos, pois o direito à saúde implica acesso a cuidados adequados, continuidade da assistência e respeito pela dignidade de cada pessoa. Daí que, quando uma unidade sanitária é afectada, importa olhar para os danos materiais, mas, sobretudo, para as pessoas que dela dependem.
Perante esta realidade, talvez a primeira pergunta não deva ser apenas: “o que aconteceu?”, mas também “o que podemos fazer?”. O esclarecimento das causas e a prevenção de novos incidentes são necessários. Contudo, enquanto essas respostas são procuradas, os doentes continuam a precisar de nós.
Assim, somos chamados a agir como seres humanos:
* Através de apoio material canalizado por iniciativas credíveis e necessidades identificadas;
* Através de palavras de conforto, escuta e presença junto dos pacientes e familiares;
* Através da participação em acções de solidariedade devidamente coordenadas; e
* Através do respeito pelas orientações dos serviços de saúde, para não dificultar o acompanhamento e a continuidade dos tratamentos.
Não se trata de substituir as responsabilidades das instituições, trata-se de reconhecer que a solidariedade também tem lugar na resposta colectiva, sobretudo quando estão em causa pessoas cuja saúde exige cuidados permanentes.
Esta reflexão remete-nos, igualmente, ao Desenvolvimento Humano, pois desenvolver uma sociedade não significa apenas construir infra-estruturas ou aumentar recursos. Significa criar condições para que as pessoas vivam com saúde, segurança e dignidade, especialmente quando atravessam momentos de maior fragilidade.
Talvez devamos recordar que a nossa humanidade se revela não apenas na forma como reagimos às grandes emergências, mas também nos pequenos gestos quotidianos: quando escutamos sem julgar, ajudamos sem procurar reconhecimento e nos aproximamos de quem precisa.
A solidariedade não apaga os prejuízos do incêndio nem dispensa a recuperação das instalações e a garantia dos tratamentos, mas pode fazer com que, perante a adversidade, os pacientes e as suas famílias sintam que não foram esquecidos.
Porque, quando reconhecemos no sofrimento do outro uma responsabilidade que também nos diz respeito e transformamos a compaixão em gestos concretos, reafirmamos aquilo que, apesar das nossas diferenças, nos une e nos aproxima: somos essencialmente humanos.
*Docente Universitária e Investigadora em Direitos Humanos e Desenvolvimento Humano