Chega de comer a pátria: a urgência do novo cabritismo

Raimundo Mapanzene*

HÁ expressões populares que funcionam como o espelho mais fiel – e, por vezes, mais cruel – da alma de uma nação. Em Moçambique, poucas frases carregam tanto cinismo, conformismo e história colonial e pós-colonial como a velha máxima: “o cabrito come onde está amarrado”.

Durante décadas, rimo-nos desta frase nos corredores das nossas instituições, usámo-la para justificar o pequeno suborno no balcão público, a “cunha” no recrutamento e o desvio orçamental nas direcções provinciais. Aceitámo-la como uma lei da física, uma fatalidade biológica de quem, estando posicionado num cargo, tem o “direito consuetudinário” de saquear o capim ao seu alcance.

O diagnóstico sociológico clássico de Jean-François Bayart em “L’État en Afrique: La politique du ventre” (1989) e a análise de Patrick Chabal e Jean-Pascal Daloz em “Africa Works: Disorder as a Political Instrument” (1999) já nos alertavam sobre a privatização do espaço público para a reprodução de elites e a instrumentalização da desordem institucionalizada. Contudo, no quotidiano moçambicano, esse fenómeno foi banalizado sob a capa do provérbio caprino.

Como bem referiu o sociólogo Carlos Serra em “Para uma Sociologia do Quotidiano” (2007, p. 112), “a normalização do pequeno desvio cria uma rede de cumplicidades que paralisa a censura social e transforma a integridade numa excentricidade”. Chegámos ao ponto em que o funcionário íntegro é ridicularizado, enquanto o predador é aplaudido.

Mas o tempo da tolerância ao cinismo esgotou-se. Com a aprovação da Estratégia Nacional de Desenvolvimento (ENDE 2025-2044), Moçambique colocou a si mesmo um desafio titânico: transitar de uma economia extractiva, vulnerável e desigual, para uma sociedade de renda média assente na industrialização, na transparência e na valorização do seu capital humano. Olhar para as metas de 2044 com a mentalidade predatória do velho cabritismo é o equivalente a  tentar pilotar um avião moderno com as regras de uma carroça. A conta simplesmente não fecha.

Joseph Hanlon (2004) já demonstrava que o ambiente de negócios é severamente asfixiado quando a alocação de recursos responde mais à proximidade de redes de influência do que à eficiência económica.

É por isso que é urgente uma ruptura radical. Não se trata de apagar o provérbio – a cultura não se extingue por decreto –, mas sim de operar uma revolução semântica e ética. Precisamos de fundar o “Novo Cabritismo”.

No velho paradigma, o indivíduo olhava para a sua “estaca” (o seu cargo ou emprego) como um feudo pessoal, e para a “erva” (os recursos públicos ou da empresa) como um banquete a ser devorado até deixar a terra nua. O resultado está à vista de todos: instituições fragilizadas, pequenas empresas locais sufocadas pelo clientelismo e uma juventude brilhante que, sem “padrinhos” políticos, vê as suas competências atiradas para a margem do desemprego.

O velho cabritismo é uma lógica de soma zero: o que o indivíduo ganha no seu bolso privado é retirado à mesa da escola, ao medicamento no hospital e à estrada que liga o distrito ao mercado.

O “Novo Cabritismo” subverte completamente esta lógica predatória a partir de três novos pilares:

Primeiro, a estaca passa a significar o epicentro da responsabilidade. O lugar onde a vida ou o Estado nos colocou não é um privilégio de extracção, mas sim o nosso solo de dever. O professor na sala de aula, o médico no hospital, o administrador no distrito e o jovem na sua comunidade devem olhar para o seu metro quadrado e perguntar: “Como posso tornar este espaço produtivo e excelente hoje?”.

Segundo, a corda deixa de ser uma limitação e passa a ser o perímetro da ética e da especialização. No mundo contemporâneo, a corda representa os limites estritos da lei, da transparência.

Respeitar o comprimento da corda significa dominar uma profissão com mestria, sem violar as regras do jogo para obter enriquecimento rápido.

Terceiro, a erva é o património colectivo que exige sustentabilidade.

O cabrito sábio não arranca a raiz do capim; ele consome apenas o necessário para gerar valor – leite, força e descendência – que nutre todo o rebanho. O gestor público e o empresário do novo tempo gerem recursos a pensar no amanhã, garantindo que o solo continue fértil para as próximas gerações.

Esta transição não se fará apenas com discursos motivacionais. Exige reformas duras: a digitalização cega da burocracia para eliminar a discricionariedade informal, a aplicação rígida da meritocracia na liderança do Estado e a coragem cultural de celebrar publicamente o profissional íntegro em vez do oportunista ostentador.

A maior riqueza de Moçambique não está enterrada no subsolo; não está no gás nem nos minerais. A nossa maior riqueza está no carácter e na capacidade de trabalho de cada moçambicano e moçambicana. Chega de comer a pátria.

A nova geração de profissionais e cidadãos tem a responsabilidade histórica de cortar as amarras do oportunismo extrativo. Sejamos nós os guardiões do nosso próprio solo. Porque quando cada um de nós assumir o compromisso de edificar e proteger o espaço que ocupa, deixaremos de ter apenas pastos isolados de sobrevivência. Teremos, finalmente, um país inteiro a prosperar.

*Sociólogo deDesenvolvimento e da Transformação Social

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